Quem são os idosos do Brasil de hoje? Como vivem? O que sentem? O que enfrentam?
Falar sobre envelhecimento é falar sobre o nosso próprio futuro e, também, sobre a forma como uma sociedade escolhe valorizar quem veio antes. O Brasil tem hoje mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e esse número só tende a crescer. Em pouco tempo, seremos um país de maioria idosa. Mas, apesar dessa realidade demográfica incontornável, ainda tratamos o envelhecimento como se fosse um tema invisível, secundário ou incômodo.
Tantas vidas, tantos silêncios
Não existe uma única forma de envelhecer. Há idosos que seguem trabalhando, viajando, estudando, cuidando da casa, dos netos e de si mesmos com plena vitalidade. Outros enfrentam perdas físicas, emocionais ou sociais profundas que transformam radicalmente seu cotidiano. Uns moram com a família em lares multigeracionais, outros vivem sozinhos, perfazendo quase 1 milhão de idosos, vivem sem companhia no Brasil, segundo dados do IBGE.
Apesar dessa diversidade de experiências, o que todos têm em comum é o desejo fundamental de manter sua autonomia, dignidade e sentimento de pertencimento à sociedade.
Quando o envelhecimento se torna sinônimo de exclusão
A realidade, no entanto, muitas vezes contraria esse desejo legítimo. Mais da metade dos idosos no país vive com até um salário-mínimo por mês, uma condição que limita drasticamente suas possibilidades de bem-estar. O acesso à saúde é precário, a mobilidade urbana é um desafio diário, e a moradia muitas vezes é inadequada às necessidades específicas dessa faixa etária.
A solidão, o esquecimento social e o preconceito silencioso, o chamado etarismo, são tão comuns que já passaram a ser considerados parte “normal” da velhice. Mas não deveriam ser. Ainda mais alarmante: estima-se que 1 em cada 3 idosos sofre algum tipo de violência, muitas vezes dentro do próprio lar. Violência física, psicológica, negligência e abuso financeiro transformam o que deveria ser um tempo de acolhimento e reconhecimento em abandono e sofrimento.
Envelhecer com saúde: um privilégio ou um direito universal?
As doenças crônicas como hipertensão, diabetes, artrose e depressão acompanham boa parte dos idosos brasileiros. O sistema público de saúde, contudo, não está estruturado para atender uma população que demanda mais tempo, cuidado contínuo e atenção especializada. Faltam profissionais capacitados em geriatria, faltam políticas públicas eficazes e faltam estruturas comunitárias de apoio.
Na prática, o cuidado recai quase sempre sobre as mulheres da família, sendo filhas, noras, esposas, que assumem essa responsabilidade sem preparação adequada, sem descanso e, frequentemente, sem apoio emocional ou financeiro. Essa sobrecarga revela não apenas uma questão de gênero, mas também a ausência de uma rede de proteção social adequada.
Velhice ativa: realidade possível ou exceção privilegiada?
É verdade que muitos idosos hoje buscam uma vida ativa, socialmente engajada e cheia de propósito. Alguns frequentam grupos de convivência, participam de atividades culturais, mantêm redes de amigos e exploram novos interesses. Mas é fundamental não romantizar essa realidade: envelhecer com autonomia e qualidade de vida no Brasil ainda exige uma combinação de esforço pessoal, privilégio socioeconômico e sorte.
O que os idosos realmente precisam
Mais do que apenas cuidados médicos, os idosos precisam de respeito, escuta ativa e espaço para continuar contribuindo com a sociedade. Precisam ser reconhecidos como parte viva e valiosa do tecido social, não como um fardo. Entre suas necessidades mais urgentes estão:
Saúde integral e contínua – acesso a profissionais especializados, medicamentos e tratamentos adequados às condições crônicas.
Moradias seguras e adaptadas – ambientes que considerem limitações de mobilidade e promovam independência.
Transporte e acessibilidade urbana – infraestrutura que permita deslocamento digno e autônomo pela cidade.
Vínculos afetivos e sociais – combate ao isolamento através de redes de apoio familiares e comunitárias.
Oportunidades de expressão e participação – espaços para que possam continuar contribuindo com sua experiência e conhecimento.
Uma reflexão urgente: que sociedade estamos construindo?
O modo como tratamos nossos idosos revela muito sobre nossos valores mais profundos. Uma sociedade que marginaliza os mais velhos não é apenas injusta, mas também míope. Porque todos nós, se tivermos a sorte de viver muito, faremos parte desse grupo. A pergunta que fica é: estamos preparados para enfrentar nosso próprio envelhecimento?
Envelhecer não deveria ser uma luta silenciosa por dignidade. Deveria ser uma fase respeitada, cuidada e valorizada, como se cuida de uma história preciosa que merece ser preservada e honrada.
A dignidade como direito, não como favor
A dignidade na velhice não é uma concessão ou favor social. É um direito previsto em lei e um indicador cristalino do nível de maturidade de uma sociedade. A forma como tratamos nossos idosos expõe, com nitidez brutal, nossas prioridades coletivas e revela o quanto ainda precisamos avançar em respeito, equidade e compromisso social genuíno.
O envelhecimento populacional é uma conquista da humanidade, sendo assim o reflexo do avanços na medicina, saneamento e qualidade de vida. Transformar essa conquista em desafio social é uma escolha. E escolhas podem ser mudadas. O futuro dos idosos de hoje é o espelho do nosso próprio amanhã.
Fisioterapeuta Dr. José Celso Rocha Martins Junior





